Como a contração de dívidas pode aumentar o valor de uma empresa?

Entenda como a contração consciente de dívidas pode não apenas aumentar o valor de uma empresa, mas também aprimorar a gestão de seu fluxo de caixa.
contração de dívidas
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Na coluna de hoje, abordaremos uma ferramenta de vital importância para muitas empresas e que representa uma possível solução para aquelas que ainda não a adotam, devido a um entendimento limitado sobre como pode beneficiar seus negócios. Exploraremos como a contração consciente de dívidas pode não apenas aumentar o valor de uma empresa, mas também aprimorar a gestão de seu fluxo de caixa.

1. Dívidas são sempre prejudiciais para o caixa da empresa?

    Não! Inicialmente, muitos empresários e investidores podem interpretar a presença de dívidas no balanço patrimonial de uma empresa como um indicativo negativo para suas operações, presumindo que a liquidação total desses empréstimos, ou mesmo a adoção de uma política de não endividamento, represente a estratégia mais acertada. No entanto, desmistificaremos essa concepção ao longo deste artigo, destacando que, em diversas ocasiões, a ausência de dívidas pode resultar em um custo significativamente maior para o capital necessário ao financiamento das operações da empresa.

    2. Quais podem ser as fontes de financiamento das operações de uma empresa?

    Para começar, é fundamental reconhecer que uma empresa enfrentará custos e necessitará fazer investimentos ao longo de sua operação. Esses desembolsos podem ser financiados de três maneiras distintas: através dos lucros gerados pela própria operação da empresa; pelo aporte de capital dos sócios existentes ou pela inclusão de um novo sócio, que introduza recursos próprios no negócio; ou ainda, por meio da contração de dívidas.

    Alternativa 1 

    A primeira opção, que envolve o financiamento por meio dos lucros gerados pela própria empresa, não acarreta um custo externo direto para a empresa. No entanto, há o custo de oportunidade interno a considerar: a decisão de investir em uma área específica da operação em detrimento de outras possibilidades ou de distribuir os lucros na forma de dividendos. Sendo assim, essa normalmente se apresenta como a alternativa mais “barata”.

    Alternativa 2

    A segunda alternativa incorre no chamado “custo de capital próprio”, que se refere ao retorno esperado pelo investidor a partir do capital que ele disponibiliza para o negócio. Este custo é calculado a partir de uma base que inclui o retorno de investimentos em renda fixa (comumente a Taxa Selic vigente), ao qual se somam o retorno exigido do mercado de ações (como compensação pelo risco assumido) e uma taxa de liquidez.

    Esta taxa reflete o retorno adicional esperado porque a participação na empresa é menos líquida do que um investimento típico no mercado de capitais. Com base na minha experiência em modelagem financeira para empresas, o custo de capital próprio geralmente se situa entre 20% e 24% ao ano, o que o caracteriza como um custo bastante elevado.

    Alternativa 3

    A última das alternativas, que diz respeito à contração de dívidas, envolve o que é denominado “custo de capital de terceiros”. Este custo se refere, essencialmente, à taxa de juros efetiva sobre o empréstimo obtido. A taxa de juros pode variar conforme a modalidade de contratação da dívida, as garantias oferecidas e os fatores macroeconômicos do momento.

    Contudo, é possível estimar que essa taxa se mantenha na faixa de 16% a 18% ao ano. Isso representa uma taxa de 2 a 8 pontos percentuais mais baixa do que o custo do capital próprio, evidenciando um custo relativamente menor associado ao endividamento em comparação ao financiamento por meio de capital próprio.

    3. Qual das alternativas é a mais barata?

      Conforme discutido sobre as diversas maneiras de financiar as atividades de uma empresa, fica evidente que o capital oriundo das próprias operações da empresa representa a opção mais “econômica” para suportar suas atividades. Contudo, não é sempre viável financiar projetos unicamente com os lucros gerados pelo negócio.

      Por exemplo, no caso de uma empresa que esteja iniciando suas atividades, é claro que não existirão lucros anteriores para financiar seu lançamento, tornando-se necessário recorrer ao capital próprio ou ao capital de terceiros. Da mesma forma, se o objetivo de uma empresa é expandir suas operações para outro estado, os lucros acumulados podem não ser suficientes para cobrir os custos de estabelecer uma nova operação do zero, fazendo-se necessário também o recurso às demais formas de financiamento.

      Nesse contexto, o custo menor do capital de terceiros, comparado ao do capital próprio, indica que contrair dívidas de maneira consciente pode elevar o valor da empresa. Isso se deve ao papel da “taxa de desconto” no Valuation, que ajusta os fluxos de caixa futuros para o presente, considerando tanto o retorno esperado pelos sócios quanto os juros dos empréstimos. Tal ajuste reflete o valor atual da empresa com base em seu potencial de geração de caixa futuro, ajustado pelos seus custos de financiamento.

      Desconto = (%E Ke) + (%D Kd)

      %E = percentual do patrimônio da empresa representando por capital próprio

      Ke = custo de capital próprio

      %D = percentual do patrimônio da empresa representando por capital de terceiros

      Kd = custo de capital de terceiros


      Assim, fica evidente que, diante de um custo de capital próprio superior ao custo de capital de terceiros, uma maior alavancagem financeira e uma menor participação de capital próprio no patrimônio líquido da empresa contribuem para que os fluxos de caixa operacionais sejam menos descontados no cálculo de seu Valuation.

      Isso significa que, ao comparar uma empresa financiada integralmente por capital próprio com outra que se divide igualmente entre capital próprio e dívidas, a segunda, ao ter um custo de capital de terceiros (Kd) inferior ao custo de capital próprio (Ke), apresentará um custo médio ponderado de capital mais baixo, resultando em um Valuation superior para o empreendimento.

      4. Sendo assim, quando parar de contrair dívidas?

        Embora adotar uma estratégia de endividamento consciente traga vantagens, é crucial que as empresas observem um limite saudável de alavancagem financeira para evitar riscos potencialmente devastadores ao negócio. Observamos no mercado exemplos notáveis, como é o caso de algumas companhias aéreas (Gol, Azul), varejistas (Americanas, Casas Bahia) e operadoras de telecomunicações (Oi), que enfrentaram dificuldades significativas devido ao impacto das dívidas em suas finanças.

        Portanto, é essencial que empresas em busca de financiamento através de endividamento monitorem atentamente suas finanças, especialmente a alavancagem adotada. A análise de mercado mostra que negócios com sólida previsibilidade de fluxo de caixa podem suportar níveis de dívida de até três vezes seu EBITDA (Lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) anual, desde que bem gerenciados. Em contrapartida, empresas de setores com menor previsibilidade financeira, como o varejo, por exemplo, tendem a ter um limite de segurança de até duas vezes o EBITDA. Essas proporções servem como referência para organizações que estão começando a explorar o endividamento como forma de financiamento.

        Além disso, é fundamental verificar se o Custo Efetivo Total (CET) do endividamento é realmente mais vantajoso que o custo de capital próprio (Ke), levando em conta elementos como os rendimentos potenciais de investimentos em renda fixa e variável, que representam o custo de oportunidade, assim como o prêmio de risco associado à operação que será financiada pela dívida.

        Se o custo do empréstimo superar o custo de capital próprio, a obtenção do financiamento não trará os benefícios discutidos neste artigo. Nessa situação, o que ocorre é um aumento no custo médio ponderado de capital da empresa, o que, por sua vez, resulta em uma redução do Valuation da empresa.

        5. Conclusão

          Em resumo, a estratégia de contração consciente de dívidas “baratas” pode ser um dos principais drivers para o aumento de valor das empresas, possibilitando o financiamento das atividades a um custo inferior ao do capital próprio do proprietário. Assim, como empresário, você terá a oportunidade de obter um retorno maior sobre um menor investimento de seu próprio capital. Contudo, é preciso atenção: se o custo da dívida, seja no momento da contratação ou em qualquer ponto durante seu período de vigência, exceder o custo do capital próprio, isso resultará, do ponto de vista matemático, em uma depreciação do valor da sua empresa.

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